quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Após acidente, douradense que perdeu a perna se adapta a nova vida e serve de conselheira


Kelly Cristina perdeu o pé em um acidente - Foto: Eduarda Rosa
Eduarda Rosa

Acidentes são noticiados todos os dias, para quem lê, ouve ou vê não há modificações em sua vida, contudo os problemas só iniciaram para quem foi a vítima.
Kelly Cristina Silva Soares, de 26 anos, foi vítima de um acidente de trânsito em outubro de 2010. Ela transitava pela via preferencial, de motocicleta, e em um cruzamento um veículo bateu nela. Kelly perdeu seu pé esquerdo na hora.

“No momento foi um choque, já chorei muito, mas agora estou mais forte”, lembra. Contradizendo as expectativas, Kelly transmite força, luta por seus direitos e motiva quem está ao seu redor.
Sua vida mudou depois que teve que usar a prótese - Foto: Eduarda Rosa
Ela conta que após o acidente quase morreu no hospital, pois não estancaram o sangue e três horas depois ela ainda não havia sido atendida. Além de perder o pé, pois todos os ligamentos tinham sido cortados, precisou amputar um pedaço da perna, porque havia quebrado em pedaços muito pequenos e a recuperação demoraria mais.
Mesmo depois de todos os episódios conversou com a mulher que causou seu acidente, “eu falo com ela de vez em quando, me pediu perdão, disse que acabou com a minha vida e entrou em depressão. Eu disse que ela não devia pensar assim, se aconteceu é porque tinha que acontecer, a motivei, pois ela é nova ainda e não pode perder a vida com depressão”, relembrou.
Kelly reviveu, como mesmo pontuou, teve o apoio da família e faz artesanatos para não dar lugar à depressão.
Vida com a prótese
Depois de se recuperar do acidente Kelly Cristina conseguiu uma prótese para sua perna, por meio do SUS (Sistema Único de Saúde), pois é preciso trocá-la de dois em dois anos e a mais simples custa R$ 8 mil.
“O problema é que com o tempo a perna vai afinando e a prótese vai ficando desconfortável, então tenho que colocar mais de 10 meias para que ela não fique saindo. Hoje não consigo ficar muito tempo com ela, porque é pesada, machuca e dói”.
A maior dificuldade de Kelly Cristina está sendo em relação ao retorno ao trabalho. “Como sou auxiliar de cozinha trabalho de pé e não é mais possível, mas a médica do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) me deu alta, então estou recebendo meu salário judicialmente. Porém quando acabar o prazo que eles são obrigados a ficar comigo, com certeza, irão me demitir”.
 
"Com o tempo a perna vai afinando e a prótese vai ficando desconfortável, então tenho que colocar mais de 10 meias para que ela não fique saindo", disse Kelly - Foto: Eduarda Rosa
A redação procurou o INSS, que informou que o recurso de Kelly está passando pelo julgamento da junta médica do Instituto.
“Eles dizem que sou nova para me aposentar, mas o meu trabalho, do que jeito que eu fazia, não consigo fazer mais. E eu sofri o acidente enquanto ia para o trabalho, eu não estava passeando”, ressalta.
Discriminação
A jovem também teve que aprender a lidar com a discriminação, principalmente, em filas preferenciais.
“As pessoas olham só à parte de cima e acham que sou perfeita, então me olham torto, não me entregam a senha, me humilham e até xingam. Por não verem minha deficiência, quando estou de calça, não quer dizer que não tenho nada, se eu entrei na fila é porque tenho algum problema”, relata Kelly.
Muitas vezes ela tem que mostrar a perna e contar sua história para ser atendida. Recorda que no começo chorava muito por conta disso, mas agora não liga mais.
“Gosto de andar de short, não tenho vergonha, mas o que irrita é as pessoas olharem e ficarem cochichando, me sinto muito mal, não sou um bicho! Se vier e perguntar eu respondo sem problema nenhum.”
Ajudar outras vítimas
Quando perdeu parte da perna ficou assustada, pois não conhecia pessoas que usavam prótese, então descobriu que um vizinho havia perdido a perna toda, usava prótese e vivia normalmente. Depois da recuperação se propôs a ajudar pessoas que passam pela mesma situação.
“Já fui várias vezes ao hospital conversar com a pessoa - inclusive crianças - ou o parente de quem perdeu o membro. Eu informo a pessoa de como fazer para conseguir a prótese, que é na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Campo Grande. O médico até brinca dizendo que virei psicóloga, para pessoas que perderam a perna”, contou.
Kelly começou a ver a situação de outra forma e percebeu que em Dourados existem muitas pessoas que usam prótese. Foi até convidada para participar do basquete de cadeira de rodas, mas disse que não leva jeito.
“Acredito que o medo não pode me dominar! Ninguém mais vai me fazer chorar!” - Foto: Eduarda Rosa
Trânsito
Ao contrário do que muitos devem estar achando, Kelly voltou a pilotar sua moto, mesmo contra a vontade de sua mãe.
“Se eu estivesse errada no acidente, nunca mais iria andar de moto, mas não estava, não gosto de carro e não consigo andar muito tempo a pé, com isso preciso da moto para me locomover”, ressaltou.
Para ela, existem muitas pessoas que andam corretamente no transito, mas também existem os errados, então é preciso tomar muito cuidado!
“A maioria dos acidentes que acompanho é culpa do outro, que estava bêbado, ou não viu, ou não prestou atenção, e, infelizmente, o motociclista é o seu próprio para-choque.”
Kelly Cristina tem três filhos (de 6, 8 e 10 anos), é casada e determinada: “Acredito que o medo não pode me dominar, consegui voltar a andar de moto e com a ajuda de meu marido até consegui andar de bicicleta, não tenho medo de cair! Ninguém mais vai me fazer chorar!”, finaliza.


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