Alberto Penna Machado, 2º Tenente da Marinha e pastor - Foto: Eduarda Rosa
Eduarda Rosa
Com a missão de achar bons personagens para as reportagens é preciso ficar atenta a tudo e a todos e quando vi pela primeira vez o vozinho com farda da marinha, achei estranho e depois de algum tempo descobri que fora militar e havia participado da 2ª Guerra Mundial. Logo me interessei pela história. Quando cheguei a casa toda colorida e com muito verde, uma bananeira logo na entrada, dois fusquinhas na garagem e vários animais, percebi que esta reportagem seria mais divertida do que havia imaginado, e estava certa.
Quem foi receber-me ao portão foi Dona Maria Virginia, esposa há 37 anos, do 2º Tenente da Marinha e pastor Alberto Penna Machado. Ela levou-me a sala de jantar onde o Sr. Penna terminava de tomar seu café da manhã. Pude perceber que cada cantinho da casa tinham histórias, sejam através de retratos, miniaturas, medalhas, bonés, livros, fitas cassetes e DVDs.
Fui encaminhada pelo Tenente ao seu “ninho”, como denomina D. Maria Virginia, o lugar onde Penna não deixa nem que ela limpe, para não tirar nada do lugar. Lá pude até escolher a poltrona que queria sentar e então começamos a viagem pela história do tenente da Marinha.
Penna é um senhor muito engraçado, de 89 anos, que espera chegar aos 90, é muito disposto, apesar dos anos terem tirado um pouco de sua audição e memória. Natural de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, nascido no primeiro dia de setembro de 1922, o 2º Tenente da Marinha contou que em sua infância precisou da ajuda de amigos de sua família para sobreviver. Foi crescendo e teve que “se virar” vendeu jornal no trem, no bonde, no cinema e foi também “vagalume” no cinema.
Então quando completou 18 anos, conseguiu se alistar no Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha, como voluntário, quis se entregar para a guerra, “ah eu era meio ‘perturbado’, nervoso, era capoeira, brigava por qualquer coisa”, lembrou ele. Teve várias punições durante seu trabalho militar, por conta disso, mas uma dessas brigas salvou sua vida, por mais contraditório que pareça.
O número 72, como era identificado no quartel, saiu sem autorização e foi para um bar, lá um marujo chegou, pegou sua garrafa de cerveja e bebeu, Penna, não podia deixar por menos, “ah, eu passei a mão na cadeira e mandei nele, mas ele foi um pouco mais ligeiro, levantou a mesa e a cadeira bateu na mesa. Nessa altura o cabo dos fuzileiros navais passava para procurar os fuzileiros e marinheiros que estavam dando alteração. Aí ele disse ‘pode botar a mesa no lugar, porque já vi o que você esta fazendo e está preso!’. Na mesma hora eu obedeci”, disse Penna.
Por ter brigado, acabou sendo preso e mesmo convocado para lutar na 2º Guerra Mundial não pode embarcar no navio que seguia rumo à Itália. “Depois disso comecei a falar que vale a pena ser brigão (risos), porque foi uma briga que me livrou da morte. Pois o submarino Alemão afundou o navio, mais da metade dos tripulantes morreram e eu não morri, porque estava preso”, lembrou o ex- esquentadinho.
“Eu era perigoso se não desse conta na força ia para a bala. Na minha vida militar briguei muito, dei tiro, parei a barca do Rio Niterói uma vez, briguei com o exército que estava querendo me prender, só não fui para a guerra porque estava preso, mas queria ter ido. Não sei se para mim foi bom ou não, mas estou vivo, muitos morreram com tiro outros comidos por tubarões”, recorda.
Relembra também um fato engraçado. Perguntou-me: “você já tomou conhecimento de alguém que já dormiu em um caixão de ferro?” Eu disse que não. Ele respondeu “então está falando com ele!” (risos). E continua contando “eu estava de serviço num lugar que tinha uns armários da marinha, lá perto da praça Mauá, então tinha aquelas gavetas, eu entrei de serviço aí eu esperei o primeiro turno, passou todo mundo, no segundo turno já me encontram dormindo dentro do caixão. Eu puxei a gaveta e me deitei lá, coloquei o fuzil do meu lado, e deitei (risos). O piquete chegou, deu um ponta pé no caixão e disse ‘levanta aí, oh morto!’”, recordou o bem humorado ex fuzileiro naval. Lembra que levou suspensão, mas valeu a pena ter tirado a soneca.
Foto: Eduarda Rosa
Depois que saiu da marinha, trabalhou por um período no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Rio de Janeiro. Seu nervosismo foi freado quando escutou uma mensagem que dizia que Jesus o amava, isso foi tão forte em sua vida que resolveu se tornar pastor. E no seminário conheceu Dona Maria Virgínia, com quem se casou em 1977. E foi aí que o Pastor Penna aceitou o convite da Junta de Missões Nacionais e veio para o Mato Grosso do Sul, em Deodápolis e depois trabalhou junto a sua esposa em vários municípios do estado. E há 12 anos estacionou seu fusquinha em Dourados, onde mora numa casinha confortável no Jardim Água Boa.
Depois que saiu da marinha achou que tinha perdido o vínculo, e há apenas três anos, depois de uma longa briga judicial, reviu seus direitos militares e se orgulha muito disso. “Meu filho correu atrás disso para mim, mas uma tristeza muito grande foi ele ter sido assassinado antes de ter dado certo”, lamenta o pai que perdeu o único filho.
Mas a melhor e mais curiosa parte da entrevista foi a visita ao seu quintal:
No tempo que o Penna era "capoeira" ele treinava muito, disse dona Maria Virgínia - Foto: Eduarda Rosa
“Sou Vascaíno roxo, do coração. Eu e a Virgínia, e os cachorros acompanham, quando faz gol a gente grita e os cachorros latem (risos). A gente se diverte normalmente, tem que provocar alguma coisa na vida, porque se não fica muito chata!”
otima reportagem de uma pessoa simples mais de grande coração...Pastor Penna....
ResponderExcluirParabéns a este senhor que é um exêmplo de vida, muito gratificante ver uma pessoa com uma idade avançada mais com tanta disposição para vida. que Deus o ilumine sempre.... JAIRO
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